O prestígio do VB

Semana passada fui prestigiado com a menção do meu nome no podcast sem prestígio dos meus amigos, Elemar Jr., Leandro Daniel e Vinicius Quaiato, que cada dia ganha mais prestígio, dias atrás estava em destaque na página de downloads de podcast do iTunes: Voidpodcast ! Este episódio teve como tema “Tecnologias sem prestígio” e fui mencionado quando VB/VB.Net entrou na discussão. Mas será mesmo que esta linguagem não tem prestígio? Então, como diria o Vinicius Senger, esse post é: Pela honra do VB!

A minha história com o VB começou no início dos anos 2000, quando eu ainda trabalhava com projetos de automação predial. Cheguei a programar uma ou outra vez nessa época nas controladoras que utilizávamos porém em uma linguagem totalmente visual, que era um arrastar e soltar de blocos que representavam ventiladores, sensores, motores… Mas a maior parte do meu trabalho foi desenhando esquemas elétricos no AutoCAD, que para quem não conhece,  é o software padrão para desenhos de engenharia 2D e 3D. Com o meu amadurecimento no uso da ferramenta, comecei a sentir a necessidade de automatizar algumas coisas no meu trabalho. Acho que quando se conhece um processo tão profundamente as tarefas ficam tão monótonas que se começa a pensar em como podemos tornar essa tarefa melhor, mais rápida e melhor  ou ainda mais assertiva; e aí estava uma oportunidade escrever código dentro da ferramenta para atingir esses objetivos! Eu sempre gostei da ideia de programar, havia feito um curso de C, mas foi com ênfase em eletrônica, que era minha área na época. O AutoCAD até a versão 14 oferecia LISP, C++, e talvez outras coisas, para programar. Eu tentei estudar LISP (Lost In Stupid Parantheses), mas foi chato pra caramba. Até que na versão 2000, a Autodesk, incluiu o VBA para AutoCAD! Sim, o mesmo VBA que já estava presente no Access, Excel, Word. O VBA me permitiu não só criar macros para blocos de desenho no AutoCAD, como também acessar uma base de dados, criar Forms para entrada de dados, tudo de uma maneira muito simples, até mesmo para alguém sem conhecimentos profundos na área. Eu comecei aí, mas não parei, tive um mentor a época, Felipe Antunes (escreve o blog “E agora DBA”), que me ajudou muito em questões básicas, em entender como funcionava um banco de dados relacional, o que me fez pular do Access para o SQL Server em pouco tempo. Fiz os treinamentos oficiais do VB6, até mesmo o 1016 que envolvia coisas como MTS (na época do Windows NT) e COM+. Adotei a famosa arquitetura WinDNA. E consegui desenvolver um software que solucionava um gap entre a área comercial e a de projetos, agilizando o processo, dando confiabilidade a informação, e por aí vai. Não é preciso dizer o quanto fiquei entusiasmado com isso, já que vim para a área de TI logo em seguida.

Mas não é por conta da minha história com a linguagem que ela tem prestígio para mim e sim por causa da história da própria linguagem. Antes,  o que quer dizer prestígio? Segundo a Wikipedia: “…se referia à ilusão causada aos espectadores pelos truques de um mágico”. “(…) O termo foi usado com este sentido até século XVIII, quando em francês se começou a dar a ‘prestige’ o significado de renome, ascendência, influência, e o prestígio francês nas cortes da Europa traduziu este significado para a nossa lingua”. O uso atual “(…) descreve importância social, alta consideração e sólida reputação”.

No fim da década de 90 e início dos anos 2000 a linguagem que tinha mais influência no mercado, corporações, produtos, … era o Visual Basic, que chegou até a versão 6, trouxe um grande poder ao desenvolvedor, no sentido de tornar simples o desenvolvimento, fazer um acesso a base de dados relacional, criar uma tela gráfica, acessar a API do Windows, desenvolver uma aplicação distribuída, tinha ficado muito mais simples. Em 2005 62% dos programadores usavam uma forma de Visual Basic (Wikipedia), já que nessa época já estavamos entrando na versão 2.0 do VB.Net, mas até hoje o Visual Basic 6 é utilizado em produção, em projetos, até mesmo alguns novos projetos são desenvolvidos com ele! Talvez atualmente o Visual Basic 6 não seja a melhor opção para desenvolver um projeto, mas no início dos anos 2000 era uma das melhores opções, Java ainda era extremamente lento e complexo, de se programar, de se criar um ambiente, o Delphi apesar de prático exigia um pouco mais. O VB dava poder para quem estava começando, dava agilidade. Mas com todo esse poder também vinha uma grande responsabilidade, que era ignorada.  Com a mesma simplicidade que se desenvolvia no VB,  se criava uma grande dívida técnica! Infelizmente o descontrole dos projetos, de arquitetura, de boas práticas não é culpa da linguagem. Não podemos culpar armas, carros, aviões por matar pessoas! Os próprios desenvolvedores foram os culpados por toda essa quantidade de brownfield que se criou na plataforma. E que não venham dizer que foram forçados a isso, que a gerência mandou. Ninguém faz o que não quer!

E hoje em dia, essa fama do VB.Net… Sinceramente não entendo isso! Apesar de hoje o VB.Net ser uma sintaxe para compilar para IL, tanto quanto C# ou qualquer outra linguagem da plataforma, e apesar dos compiladores das duas principais linguagens (VB.Net e C#) serem separados, o código gerado, a IL é praticamente a mesma! Havia uma diferença no início que foi diminuindo com o passar das versões. Até mesmo a quebra de linha sem o uso do caractere underscore foi implementada na versão atual da linguagem. E o inverso aconteceu também, foi implementado no C# parâmetros opcionais, algo que eu nunca achei legal, mesmo no VB6, contribui para o código spaguetthi, quebra a SRP, e por aí vai. Mas de novo, só depende do desenvolvedor em deixar isso acontecer. Acho a sintaxe do VB.Net mais perto da linguagem natural e acho isso legal. Se pensarmos em linguagem de negócio, de domínio, o código fica mais legível, é mais inteligível para um analista de negócios trabalhar junto com um desenvolvedor, isso especificamente em sistemas LOB. A escolha da sintaxe na plataforma .Net não afeta em nada o resultado do desenvolvimento, é mais uma escolha pessoal do que técnica, exetuando-se algumas particularidades.

Por fim, o VB.Net resolve o problema do cliente, que é o objetivo com que qualquer linguagem é criada, fora linguagens teóricas. E isso que é importante, juntamente com o cuidado de se escrever um código limpo.

Desenvolvo na plataforma .Net desde 2004 e tenho usado VB.Net e C#, praticamente meio a meio, e não tenho tido problemas nos meus projetos de precisar de algo que um não ofereça. Talvez hoje o VB não tenha o mesmo apelo que no incío dos anos 2000, hoje temos diversas linguagens maduras no mercado, que cresceram muito rápido e que atendem a nichos específicos. Mas certamente o prestígio do VB esta com toda uma geração de desenvolvedores que cresceu profissionalmente com ele.

One Reply to “O prestígio do VB”

  1. Emanuelito!

    Valeu pela lembrança, eu que fico muito feliz em ver toda a sua evolução desde os tempos da velha firma até os dias de hoje.

    Voce sabe que eu gosto muito de VB6. Na sua época ele cumpria muito bem seu papel, foram poucas vezes que me vi enfrentando problemas e limitações da linguagem. Também concordo contigo sobre culpar ferramentas. É como prender um martelo por homicidio por ele ter ido parar na cabeça de alguém.

    E esse olho torto sobre o VB.Net é pura herança do preconceito besta contra o bom e velho VB.

    Abraços!

    Não faz o menor sentido olhar torto para o VB.Net. É sem duvida preconceito herdado

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *